
Várias camadas de roupa fina, por isso inadequada ao inverno portugês, tolhiam os movimentos mas não conseguiam aplacar o frio intenso que sentia.
Expectante, desejoso de penetrar no desconhecido, estava eu no convés do transatlântico aguardando que atracasse ao cais.
Tremia, mas já não sabia se do frio, se da ansiedade.
Estávamos a 28 de Fevereiro de 1972. Nove dias antes a minha mãe, a minha irmã e eu, tínhamos embarcado no Rio de Janeiro, com a temperatura do ar a rondar os 40º .
A partida é sempre dolorosa. A chegada, uma incógnita. Muito foi deixado para trás. Muito aqui foi encontrado.
Se nada apaga o passado, também nada determina o futuro, apenas nós.
Vim encontrar um país que era (é) o meu mas que eu desconhecia. Uma língua que, sendo a mesma, era tão estranha. Pessoas das quais só sabia um ou dois nomes, mas que não tinham rosto. Ou se tinham, estavam muito desfocados nas fotografias da minha memória.
O inverno tornava ainda mais sombria a primeira imagem que tive de Portugal. Frio, escuro, triste, melancólico, muitas mulheres vestidas de preto, até os automóveis... não me lembro de ter visto um que não fosse antigo e preto. Era o nosso país. Aqui teríamos de refazer a nossa vida. Assim iríamos fazer.
A receber-nos, alguns familiares: os tios Quim, Tina, Toni e o nóvel primo Rui. Abraços, beijos, histórias adiadas contadas de uma assentada.
Depois de uma noite de repouso em Lisboa, rumámos ao Porto. Viagem longa e tormentosa num comboio que parava aqui, parava alí, parava em todo o lado. A paisagem, quase sempre a mesma, campos, campos e mais campos, mostrava um país profundamente rural. Ainda na Estação de Santa Apolónia, creio que aprendi a primeira palavra em calão português: GATUNO. Estava gatafunhado numa balança no átrio da estação. Indaguei acerca do seu significado. A resposta do tio Quim foi perentória: nada tinha a ver com os felinos, pelo menos na acepção literal. Outras se seguiram: fato, comboio, campos, bouças, etc.
Chegados ao Porto, dirigimo-nos a S. Mamede, à casa dos avós, na Rua Padre Costa. Se não estou errado, na casa contígua à que nasci.
Aí tínhamos a receber-nos o resto da família. Novamente beijos, abraços, choros, perguntas, muitas perguntas. A imagem que mais vivamente guardo na memória é a do meu avô. Cabelos brancos, pouco falador, mas transbordante de felicidade.
Um turbilhão de emoções. Para mim não foi inesperado, mas muito confuso, desgastante e ao mesmo tempo compensador. Afinal, também aqui tinha uma família. Numerosa. Atenta. Acolhedora.